A Pequena Bailarina e o Jovem Podólatra.
Até que ponto as coisas que fazemos ou nos acontecem quando éramos pequenos vão determinar quem seremos e nossos gostos na fase adulta?
Com a devida licença poética que o passar dos anos me concede, eis a minha primeira história:
Lembro-me que estava na pré-escola. Éramos um grupo pequeno, destes que tem apenas uma turma em cada série.
Entre as aulas de alfabetização, artes, música havia um momento em que as meninas iam pra aula de ballet e os meninos para o judô.
Todo mundo sabe que Curitiba faz muito frio. Não sei se existe alguma relação com o clima e os rígidos exercícios do ballet, mas é certo que eu tinha muitas cãibras. Este foi um dos motivos que me fez, mais tarde, abandonar o ballet e ir para sala de judô.
Durante uma das séries de exercícios nós ficávamos sentadas com as pernas esticadas fazendo movimentos de pontas com os pés. Usávamos aquelas sapatilhas cor de rosa com fitas de cetim trançadas pelas pernas.
Bastava um esforço maior durante o movimento para que os meus músculos começassem a se retesar dando início àquela dor terrível.
Eu já começava com o meu “ai ai ai” e puxava o pé na direção contrária até que o músculo parasse de esticar.
Aliviada massageava a sola dos pés ainda doloridas e logo voltava aos exercícios.
Eu nunca teria reparado realmente que nossas aulas eram acompanhadas timidamente por um menino se, numa das minhas crises de cãibras, ele não tivesse vindo me socorrer.
Eu estava começando a minha sinfonia de “ai ai ai “ e puxando o pé quando derrepente ele surge na minha frente, se abaixa e pergunta:
--- Tá doendo?
--- Ta!
--- Muito?
--- Humhum...
Ele tirou delicadamente a minha sapatilha, desenrolando as fitas de cetim cor de rosa que se tramavam sobre a minha perna. Segurou meu pé com as duas mãos e massageou a minha sola ate que parasse de doer sem nunca tirar os olhos delas.
A professora que assistia a cena determinou que eu voltasse aos exercícios e ele falou:
--- Se doer de novo você me chama que eu venho correndo, ta?
Mas ele ainda não havia soltado meu pé e ainda com as duas mãos segurou bem firme e aproximou seu rosto de forma que o nariz tocasse a parte onde os dedos se unem a sola e respirou bem fundo.
Puxei o pé bruscamente e ele saiu correndo como criança que é pega fazendo uma molecagem danada, mas feliz.
Historinha bobinha não é?
E se eu disser pra você que a bailarina sou eu e que o menino que me socorreu é o Giuliano Moretti?
Vale a pena refletir.

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